Presentación de la historiadora Fina D’Armada

A ALMA DE FLORBELA E A ALMA DE FERNANDEZ

(Apresentação da obra “Florbela Espanca, a Vida e a Alma duma Poetisa”

14 de Maio de 2011)

Por Fina d’Armada

Todos nós sabemos de cor versos dispersos de Florbela Espanca: «Longe de ti são ermos os caminhos/ longe de ti não há luar nem rosas»; «Quem nos deu olhos para olhar os astros/ Sem nos dar braços para os alcançar?»: «Eu quero amar, amar perdidamente /amar só por amar: Aqui… além»; «Que seja meu corpo uma alvorada/ que me saiba perder para me encontrar». Eis alguns dos versos que a minha memória, memória do povo, foi fixando.

É extraordinário que José Carlos Fernandez, falando a língua de Cervantes, se tenha deixado fascinar pelos versos de uma poetisa lusa. Tal como diz António Cândido Franco, no prefácio, «o autor deste estudo pôde contemplar maravilhado a essência da Criação nos versos da poetisa e ver nos poemas que ela nos legou a irradiação dum génio ou dum arcano; ele viu no verbo de Florbela o rasto luminoso duma ideia sublime».

O subtítulo desta obra, “A Vida e a Alma de uma Poetisa”, está bem dado. É que José Carlos Fernandez não nos conta a biografia de Florbela, embora só por si seja matéria de filme ou de romance. O autor desta biografia penetra na alma de Florbela e, conhecedor da filosofia pitagórica e da mística budista, fornece-nos um novo retrato da poetisa alentejana. «Florbela teve a clara consciência de que a vida é como uma peregrinação sobre a qual não sabemos exactamente de onde nem para onde vamos, e menos ainda o porquê” (p. 21)

O autor acompanha a vida da criadora com a poesia criada. Percebe-se que teve um trabalho monstruoso para encontrar paralelismos entre os passos de amor e desencanto da poetisa e a poesia que ia produzindo. Não conheço outro trabalho em que isso tenha sido feito, e vai explicando, explicando, de maneira a ficarmos com outra ideia mais enriquecedora da autora de “Charneca em Flor”.

É muito difícil falar de alguém que nasceu genial e que, por isso, durante a sua existência, teve de pagar um preço alto perante os invejosos do mundo. Um dos objectivos conseguidos do autor foi desfazer certas ideias torpes sobre Florbela, pois, no fundo, a incompreensão dos outros e as más-línguas sobre ela resultaram de ter nascido cedo demais na civilização. Fernandez viu-a como uma poetisa universal, que tem mérito para além do tempo e cada vez mais vai aumentando à medida que o tempo passa e os invejosos são vencidos.    Neste sentido, José Carlos Fernandez dá valor ao sentir do povo. E, tal como eu, que ao longo da vida fui decorando um verso ou outro, «A verdadeira consagração de Florbela como poetisa veio, sempre assim é, da voz profunda do povo, fiel na sua singeleza e anonimato, ao eflúvio de beleza que desce como um orvalho do céu». E acrescenta o autor: «É sempre o povo e quase nunca os eruditos ou críticos que reconhecem com digna reverência a chama do génio criador» (p. 38). E cita Florbela numa das suas cartas. «Eram 24 horas… eu  sonhava!… Nisto uma voz ergueu-se, uma voz acariciadora, pungente na toada, pungentíssima do fado tão querido à alma portuguesa, e cantou, sabes o quê, minha Júlia? Essas minhas despretensiosas quadras que o “Suplemento” publicou, tão pobres, tão ingénuas, tão sentidas, que o povo humilde as acolheu e as canta».

Naturalmente, nesta alma de Florbela, percebe-se muito da alma poética e filosófica de Fernandez. Pela maneira como encaixa os poemas no decurso da Vida de Florbela, como se esforça por entender a criadora e a obra criada, como se fosse um destino… Se fosse eu, diria que o que tanto fez sofrer Florbela Espanca foi a sua condição de mulher. Florbela nasceu cedo demais, não era pessoa para se cingir às normas femininas do seu tempo. Fernandez publica cartas onde surgem esses retalhos castradores ou laivos feministas: «Acho o casamento uma coisa revoltante. E isto por uma única razão, mas que para mim é tudo, para mim e para aquelas mulheres que não são apenas fêmeas, para todas as delicadas, para todas as que têm pudor, espírito e consciência. Essa razão é a posse, essa suprema e grande lei da natureza que, no entanto revolta tudo quanto eu tenho de delicado e bom no íntimo da minha alma… A minha querida faz bem, faz muito bem em não se querer sujeitar ao mercado, à venda» (p.47). «É o casamento um grilhão de flores e risos? De acordo, mas é sempre um grilhão» (p. (44). «Eu não sou em muitas coisas nada mulher; pouco de feminino tenho em quase todas as distracções da minha vida. Todas as ninharias pueris em que as mulheres se comprazem, toda a fina gentileza duns trabalhos em seda e oiro, as rendas, os bordados, a pintura, tudo isso que eu admiro e adoro em todas as mãos de mulher, não se dão bem nas minhas, apenas talhadas para folhear livros» (p.64). «Tu sabes que eu não tenho nada senão o que o marido ganha» (p.233). «Sou tua mulher, não é verdade? Espero as tuas ordens, as tuas resoluções» (p.80). E acerca do irmão: «Que ele possa fazer o que a mim me é negado» (148).

O que a levou à morte foi a sua condição de mulher. Casou três vezes e viu o 3º casamento desmoronar-se sem forças para mudanças, como diz. Não conseguiu ser mãe, tendo abortado três vezes. Nem sempre conseguia editar os seus livros, quando enviava poemas para a imprensa, por vezes trocavam-lhe palavras e os títulos. Doente, sem independência económica, mal vista pela sociedade do tempo, sem capacidade para encontrar um novo amor, que lhe restava senão a libertação da morte? Morreu no dia dos seus anos, completando um círculo de vida. Ela, a que tinha sede de infinito, condensou a sua existência num só grito.

O mundo aceitou mal a sua rebeldia. O seu panteísmo. É interessante o que diz o 3º marido afirmando que Florbela não era poetisa «pois nela os versos brotam espontaneamente na sua alma; não há, diz, trabalho criador». (p. 295). Na verdade, como nos mostra Fernandez, as palavras fluíam como água na sua pena. E quando lemos Florbela, apesar de os sonetos serem tão difíceis de compor, pela rima, pelo ritmo, pelo número de sílabas, pela sua acentuação… parece que realmente as palavras certas surgiram ali sem poderem ser outras. E sempre elevadas.

O autor cita Aurélia Borges, discípula de Florbela que a considera «Mestra da elegância dos pensamentos. Nas suas poesias – as mais arrojadas, as de maior exaltação – não há uma simples frase, uma única ideia chocante. Descendo à materialização do amor, paira sempre acima da vulgaridade e é o seu luminoso espírito que adoça, perfuma e enaltece o que noutros é torpe, abjecto» (p. 296)

Nos seus inspirados sonetos, Florbela dirige-se sempre a Alguém, a um Ele, nunca à multidão, aos outros. Fernandez considera que a poesia de Florbela «é na realidade a busca do Eu Profundo, a tentativa de conhecer-se a si mesmo, pois é dentro de si que se encontrará esse Alguém que não existe».

Este livro de José Carlos Fernandez lê-se muito bem, como um fluir. Não apresenta capítulos, todo é um correr como quem tem sede de saber mais, de conhecer melhor os mistérios e os meandros de alguém que, de tão profunda, não sei se alguém um dia a conhecerá inteiramente: «Tenho pena de mim…De não beijar o riso duma estrela/ De não ter asas para ir ver o céu…/ De não ser Esta… a Outra… e mais Aquela…/De ter vivido e não ter sido Eu…».

E termina o autor: «Nenhuma outra poetisa portuguesa nos seus mais de 800 anos de história foi elevada à categoria de Musa, como fez Platão com a poetisa Safo… nenhuma alcançou, excepto ela, Florbela, estatuto de quase divina na consciência do povo, que é quem finalmente eleva os poetas superando todo o tipo de falsas atribuições e indo sempre mais além da opinião dos eruditos e censores do saber do momento» (p. 284).

Que a leitura destas duas almas, da poetisa e de Fernandez, encantem os vossos dias, como asas brancas que voam e passam.

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